O poder das nádegas: como a anatomia da bunda nos fez humanos

  • 24/02/2026
(Foto: Reprodução)
Estátua do Hermafrodita adormecido, cópia romana do século II a.C. de um original helenístico do século II a.C. no Louvre: mais que uma obsessão estética, formato - e função - dos nossos traseiros foram moldados pela evolução. Gian Lorenzo Bernini/Pierre-Yves Beaudouin/Wikimedia Poucas partes da nossa anatomia recebem mais atenção do que o nosso traseiro. Foco de atração indiscutível, os artistas sempre souberam que as nádegas atuam como um poderoso ímã para nossos olhares. É por isso que seus nus sempre foram especialmente cuidadosos ao tratar essa parte protuberante dos nossos corpos. Desde a beleza perfeita do traseiro da Vênus do Espelho de Velázquez até a maravilha glútea do Perseu de Bevenuto Cellini, tenho que reconhecer que essa dupla curvatura que coroa nossa parte aboral (no extremo oposto à boca) me parece um prodígio da natureza. Mas não se enganem, minha veneração não se deve apenas à estética. Minha fascinação total é pelo que sua morfologia significou para tornar os Homo sapiens o que somos. VEJA TAMBÉM: Veja os vídeos que estão em alta no g1 Macacos de bunda grande O design do traseiro humano é bastante peculiar. Se olharmos para nossos primos evolutivos mais próximos (chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos), seus traseiros não são especialmente globosos nem protuberantes muscularmente (embora as calosidades, colorações ou tumorações que os adornam contribuam para destacá-los na perspectiva visual). Fazendo uma comparação proporcional ao tamanho corporal, os traseiros humanos são consideravelmente maiores, mais arredondados, mais musculosos e mais projetados dorsalmente. E por quê? Bem, o aspecto fundamental da mudança drástica dos traseiros esteve no fato de que nossos ancestrais passaram a andar em pé. Algo tão difícil como andar com dois pontos de apoio em vez de quatro implicou muitas mudanças. E para evitar cair de cara no chão, foi imprescindível mudar as nádegas. Um novo traseiro revolucionou nossa história A bipedalidade implicou uma remodelação total do nosso esqueleto. Reorientando o sacro, encurtando e girando as cristas ilíacas e remodelando o ísquio e o púbis, conseguiu-se uma pelve muito mais adaptada à posição ereta e capaz de suportar todo o peso que recaía sobre o tronco e a cabeça. Além de um quadril mais resistente, a cabeça do fêmur (esférica) e o acetábulo (a cavidade onde essa “bola” se encaixa) maximizaram sua superfície de contato, o que reduziu a pressão sobre uma articulação sobrecarregada com tanto peso e melhorou nossa estabilidade. Mas, na anatomia, as mudanças nunca são isoladas. Os músculos que se inseriam nessa nova estrutura óssea também mudaram substancialmente. Assim, embora nossas nádegas sejam constituídas pelos mesmos músculos que as de nossos ancestrais arborícolas (glúteos, piriforme, obturador externo, obturador interno, gemino inferior e gemino superior), suas formas mudaram, especialmente as dos três pares de glúteos. E essa alteração de forma implicou uma mudança prodigiosa de função. Por que Reino Unido faz ofensiva contra o 'Brazilian butt lift', procedimento para aumentar o bumbum Para começar, nosso glúteo máximo sofreu um desenvolvimento extraordinário que o projetou dorsalmente, tornando-o “empinado”. Assim, o que hoje é o maior músculo da nossa anatomia deixou de ser apenas um estabilizador lateral (como acontece no resto dos primatas) para permitir duas coisas muito importantes. Por um lado, estabilizar o corpo ereto (e sem que a pelve colapse) quando levantamos uma perna para dar um passo. Além disso, possibilitou algo muito interessante para um macaco que acabou de descer da árvore: poder sair correndo com apenas duas “patas”. Sim, ter um espetacular glúteo maior com grande parte de suas fibras inseridas diretamente sobre o fêmur é o que possibilita a propulsão do corpo durante a corrida. A prova disso é o poder dos glúteos maiores exibido em uma final olímpica dos 100 metros rasos. Por sua vez, o glúteo médio, que abduz a anca (separa a coxa do eixo central do corpo), estabiliza a pelve durante a marcha com as duas pernas. Ele consegue isso porque, quando apenas um pé está apoiado, o glúteo médio do lado de apoio evita que a pelve caia para o lado oposto.. É por isso que César, o líder da rebelião dos macacos em O Planeta dos Macacos, anda balançando bruscamente os quadris. Esse andar, semelhante ao de um pato, é o que apresentam as pessoas com lesões nesses músculos, no que é conhecido como sinal de Trendelenburg. Estáveis sobre duas pernas O terceiro glúteo, o menor, passa de uma orientação posterior para outra mais lateral, o que também contribui para a estabilização ao controlar o movimento “fino” quando caminhamos ou corremos. Ele consegue isso porque, ao se contrair, mantém a “bola” do fêmur bem encaixada na cavidade do acetábulo enquanto o corpo se move. Assim, evita o aparecimento de dores laterais no quadril por sobrecarga da articulação quando o peso do corpo a pressiona. Os glúteos médio e menor conseguiram esses efeitos biomecânicos não tanto por uma mudança de forma, mas por alterar a orientação de suas fibras. Ao dispô-las horizontalmente, facilitaram a abdução e a estabilização bípede. Sua alinhamento nos símios, muito mais vertical, é o que lhes proporciona essa facilidade impressionante que têm para escalar. Nesta autêntica revolução arquitetônica que passamos como primatas que nos tornou bípedes, os ligamentos também se reorganizaram funcionalmente. Por exemplo, o grande desenvolvimento que o iliofemoral experimentou nos permitiu ficar em pé sem quase nenhum esforço muscular. Os isquiotibiais, por sua vez, tornaram-se excelentes auxiliares dos glúteos maiores para proporcionar a aceleração. A cereja no topo Mas não nos enganemos. Bumbuns bonitos exigem o efeito “bumbum de pêssego”. Ou seja, eles precisam de esfericidade. Isso é feito pelo elemento remodelador por excelência, ou seja, uma gordura bem distribuída. Mas atenção, o critério estético não foi o que prevaleceu quando a seleção natural distribuiu “gordura aqui e gordura ali” em nossos traseiros. Foi sua funcionalidade versátil. O tecido adiposo das nádegas atua como uma almofada natural, protegendo os ossos da pelve (principalmente o sacro e o ísquio), diminuindo a pressão ao sentar (ao melhorar a distribuição das forças) e absorvendo grande parte dos impactos ao caminhar ou correr. Como se não bastasse, recentemente descobriu-se que a gordura das nádegas tem propriedades protetoras contra a resistência à insulina, diabetes tipo 2 e muitas doenças cardiovasculares. A gordura, portanto, foi responsável por fazer com que o traseiro acabasse sendo uma “invenção” redonda. Agora, quando seus olhos se fixarem no traseiro redondo, proporcionado e aveludado do Hermafodito de Villa Borghese, não se sinta culpado. Na verdade, você está apenas confirmando uma grande verdade biológica: que a bunda nos tornou humanos. *A. Victoria de Andrés Fernández é professora titular no Departamento de Biologia Animal da Universidade de Málaga. **Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil.

FONTE: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/02/24/o-poder-das-nadegas-como-a-anatomia-da-bunda-nos-fez-humanos.ghtml


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