Voçorocas avançam em Buriticupu e deixam moradores com medo de perder suas casas
09/03/2026
(Foto: Reprodução) Voçorocas avançam em Buriticupu no Maranhão
O avanço das voçorocas tem causado medo e prejuízos a moradores de Buriticupu, a 414 km de São Luís. As crateras, abertas principalmente pela ação da água da chuva em solo arenoso, já afetaram centenas de famílias e continuam crescendo, ameaçando casas e ruas da cidade.
“O que a gente tinha, a gente aplicou aqui. Nunca passou pela nossa cabeça que uma tragédia dessa pudesse acontecer. Hoje a gente dorme com medo, com medo de desabar tudo. Às vezes a gente está deitada na rede ou na cama e sente o tremor das barreiras caindo”, conta.
Em alguns pontos da cidade, as erosões já chegaram muito perto das residências. Uma das voçorocas está a cerca de 13 metros da casa da moradora Nádia, que vive no local com a família.
O marido de Nádia diz que, quando a casa foi construída, há cerca de dez anos, a cratera estava a cerca de 500 metros do quintal. Segundo ele, nos últimos anos o buraco avançou rapidamente.
“Esse buraco aqui, de dois ou três anos para cá, avançou muito. Agora está caindo do outro lado. Do jeito que está, se continuar assim, vai acabar mais ruas”, afirma.
As primeiras voçorocas em Buriticupu surgiram há cerca de 40 anos. O fenômeno ocorre quando a água da chuva escava o solo, especialmente em áreas com pouca vegetação e terreno arenoso.
Nas bordas da cidade, as crateras se transformaram em grandes fendas que avançam principalmente durante o período chuvoso e tiram a tranquilidade dos moradores.
“Assusta a gente porque balança até as coisas dentro de casa. Quando a barreira quebra, o chão estremece como se fosse um trovão”, relata um morador.
Voçorocas avançam em Buriticupu e deixam moradores com medo de perder suas casas
Reprodução/ TV Mirante
Especialistas apontam que o crescimento urbano sem planejamento também contribui para o problema. Ruas pavimentadas sem sistema de drenagem acabam direcionando a água da chuva para encostas, o que acelera o surgimento e o avanço das voçorocas.
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Segundo pesquisadores, Buriticupu já registra cerca de 33 crateras, que continuam crescendo e mudando a geografia da cidade.
Em alguns bairros, ruas inteiras desapareceram. “Antes era uma rua por onde passavam carros, motos e moradores. Agora não existe mais”, diz um morador.
Uma das voçorocas avançou cerca de 18 metros desde o início do ano passado. No caminho, destruiu parte de uma rua e chegou perto de várias casas.
Por causa do risco, pelo menos 16 famílias tiveram que deixar seus imóveis, que ficaram à beira da cratera.
A moradora Nielba vivia a cerca de 15 metros de uma voçoroca, mas decidiu sair da casa por medo de desabamento.
“Estou deixando minha casa porque não consigo mais dormir à noite de tanto medo. Hoje de manhã eu entrei em desespero vendo tanta barreira caindo. Fiquei pensando que não ia dar tempo de tirar nada”, conta.
De acordo com moradores, as voçorocas já causaram sete mortes na cidade. Há duas semanas, o idoso Francisco Cavalcante, de 72 anos, caiu em uma das crateras. Ele foi resgatado com fraturas e segue internado no hospital da cidade.
A estimativa é de que mais de 360 famílias já tenham sido afetadas pelas erosões. Outras centenas ainda vivem em áreas consideradas de risco.
Na última sexta-feira (6), terminou o prazo dado pela Justiça para que a Prefeitura de Buriticupu comprovasse o cumprimento de medidas para conter o avanço das voçorocas e proteger as famílias que vivem nas áreas de risco. Até o momento, o relatório não foi apresentado.
Segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, desde 2023 o governo federal já liberou quase R$ 10 milhões para ações de socorro aos moradores afetados.
Desse total, cerca de R$ 8 milhões foram destinados à construção de casas para as famílias atingidas.
Apesar disso, parte das moradias ainda não foi entregue. Ao menos 27 casas estão prontas há quase um ano, mas continuam vazias. Outras 15 ainda não foram concluídas.
Com as obras paradas, a água da chuva invade alguns imóveis e provoca infiltrações nas paredes e no teto.
“A gente espera que chamem a gente para dizer que a casa já está pronta, que a gente pode ir para o novo lar. Mas isso nunca aconteceu”, diz uma moradora que aguarda a entrega da residência.
As crateras se formaram a partir da rápida expansão urbana e como consequência do desmatamento da vegetação nativa em áreas de alta declividade
Reprodução/ TV Mirante